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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vazamentos diplomáticos dos EUA: a visão de mundo de uma superpotência

Hillary Clinton, ex-primeira-dama americana e atual secretária de Estado dos EUA, terá que explicar dados divulgados por site
Um total de 251 mil documentos, muitos deles relatórios secretos de embaixadas norte-americanas em todo o mundo, mostram como os Estados Unidos procuram resguardar a sua influência em todo o mundo. O episódio equivale praticamente a uma desintegração da política externa dos Estados Unidos.

O que os Estados Unidos pensam de fato a respeito da chanceler alemã Angela Merkel? Ela é uma aliada confiável? Ela realmente se esforçou para reconstruir as relações com Washington que foram danificadas pelo seu antecessor? Na melhor das hipóteses, tal esforço careceu de entusiasmo.

O tom das relações entre os dois lados do Atlântico pode ter melhorado, escreveu o embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, William Timken, em um relatório confidencial para o Departamento de Estado no final de 2006. “Mas a chanceler ainda não tomou medidas arrojadas no sentido de melhorar o conteúdo concreto dessas relações”, observou Timken. Isso não é exatamente um elogio.

E o veredicto quanto ao ministro alemão das Relações Exteriores, Guido Westerwelle? As suas ideias “carecem de substância”, escreveu o atual embaixador dos Estados Unidos em Berlim, Philip Murphy, em um comunicado. O motivo, sugeriu Murphy, é que “a compreensão de questões complexas relativas à política externa e de segurança por parte de Westerwelle ainda necessita de aprofundamento”.

Tais comentários estão longe de serem amigáveis. Mas aos olhos do corpo diplomático norte-americano, cada indivíduo é categorizado ou como amigo ou como inimigo. O rei Abdullah da Arábia Saudita? Um amigo: Abdullah não suporta os seus vizinhos no Irã e, manifestando desdém pelo regime dos mulás, afirmou: “Não há dúvida de que existe algo de instável em relação a eles”. E quanto ao seu aliado, Sheikh bin Zayed, de Abu Dhabi? Também um amigo. Ele acredita que “uma guerra convencional de conclusão rápida com o Irã é claramente preferível às consequências de longo prazo de um Irã nuclearmente armado”.

Os emissários da secretária de Estado Hillary Clinton também ficaram sabendo por meio de um “observador especial do Irã” em Baku, a capital do Azerbaijão, de um desentendimento ocorrido durante uma reunião do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã. Um enfurecido Mohammed Ali Jafari, chefe de gabinete da Guarda Revolucionária, teria mantido uma discussão acalorada com Mahmoud Ahmadinejad e esbofeteado este último porque o presidente, geralmente conservador, teria defendido a liberdade de imprensa.

Uma desintegração política

Tais surpresas dos anais da diplomacia dos Estados Unidos dominarão as manchetes nos próximos dias quando o “The New York Times”, o “Guardian”, de Londres, o “Le Monde”, de Paris, o “El País”, de Madri, e “Der Spiegel” começarem a revelar o verdadeiro tesouro de informações contidos nos documentos secretos do Departamento de Estado. Entre eles há 243 mil mensagens diplomáticas enviadas de embaixadas dos Estados Unidos ao Departamento de Estado e 8.017 diretrizes que o Departamento de Estado enviou aos seus diplomatas em todo o mundo. Nos próximos dias, a mídia revelará, em uma série de reportagens investigativas, como os Estados Unidos procuram conduzir o mundo. O episódio se constitui em nada mais nada menos do que uma desintegração política para a política externa norte-americana.

Nunca antes na história uma superpotência perdeu controle sobre uma quantidade tão substancial de informações tão sensíveis – dados que podem ajudar traçar um retrato das bases sobre as quais a política externa dos Estados Unidos está sustentada. Nunca antes a confiança que os parceiros dos Estados Unidos depositavam neste país foi tão abalada. Agora, as suas visões pessoais e recomendações relativas a políticas externas tornaram-se públicas – bem como a verdadeira opinião que os Estados Unidos têm sobre eles.

Por exemplo, é possível saber que o ministro da defesa alemão Karl-Theodor zu Guttenberg o político mais apreciado da Alemanha, segundo as pesquisas de opinião, critica abertamente o seu colega de gabinete Guido Westerwelle em conversas com diplomatas norte-americanos, e até faz intrigas sobre ele. Ou que a secretária de Estado, Hillary Clinton, deseja que os seus embaixadores em Moscou e em Roma a informem se têm fundamento os rumores de que o presidente italiano Silvio Berlusconi e o primeiro-ministro russo Vladimir Putin possuem vínculos referentes a negócios privados, além da sua estreita relação de amizade – boatos que ambos negaram veementemente.

Os embaixadores dos Estados Unidos podem ser impiedosos nas suas avaliações dos países nos quais estão atuando. Esse é o trabalho deles. O Quênia? Um pântano de corrupção crescente que se espalha por todo o país. Quinze autoridades quenianas de alto escalão já estão proibidas de viajar para os Estados Unidos, e quase toda sentença contida nos relatórios da embaixada manifesta desdém pelo governo do presidente Mwai Kibaki e do primeiro-ministro Raila Odinga.

Interesse público versus confidencialidade


A Turquia também não sai nem um pouco menos arranhada dos relatórios. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, segundo alegam os comunicados secretos, governa com o auxílio de assessores nitidamente incompetentes. Autoridades da embaixada norte-americana em Ancara descrevem o país como estando na rota para um futuro islamita – um futuro que provavelmente não incluirá o ingresso na União Europeia.

Assim como ocorreu com os quase 92 mil documentos sobre a guerra do Afeganistão no final de julho e os quase 400 mil documentos sobre a Guerra do Iraque recentemente divulgados, as mensagens do Departamento de Estado também foram vazadas para o WikiLeaks, uma organização especializada em vazamentos de notícias confidenciais – e elas supostamente vieram da mesma fonte. Assim como ocorreu anteriormente, o WikiLeaks forneceu o material para parceiros da mídia para revisão e análise.

Com uma equipe de mais de 50 jornalistas e pesquisadores, “Der Spiegel” leu, analisou e organizou a montanha de documentos. Na maior parte dos casos, a revista procurou proteger as identidades dos informantes dos norte-americanos, a não ser nos casos em que a pessoa que atuou como informante era suficientemente graduada para ter relevância política. Em alguns casos, o governo dos Estados Unidos manifestou preocupações relativas a segurança e “Der Spiegel” aceitou algumas dessas objeções. Em outros casos, no entanto, “Der Spiegel” sentiu que o interesse público pela divulgação das notícias era maior do que uma ameaça à segurança. Por meio das nossas pesquisas, os editores e os jornalistas de “Der Spiegel” cotejaram o interesse público com o interesse justificado dos países na segurança e na confidencialidade.

Em uma declaração, um porta-voz da Casa Branca condenou a iminente publicação dos documentos pelo WikiLeaks, classificando a iniciativa de “incauta e perigosa”. As mensagens, que contém “informações francas e muitas vezes incompletas”, não se constituem em uma expressão de políticas e nem sempre determinam decisões políticas finais, disse o porta-voz. “Tais vazamentos colocam em risco os nossos diplomatas, profissionais da área de inteligência e pessoas por todo o mundo”, afirmou o porta-voz. “O fato de conversas privadas terem agora se tornado públicas pode ter um impacto profundo não só sobre os interesses dos Estados Unidos no exterior, mas também sobre os interesses dos nossos aliados e amigos em todo o mundo”.

Agora é possível enxergar vários fatos políticos ocorridos em todo o mundo sob a ótica daqueles que participaram de tais acontecimentos. Assim sendo, a nossa compreensão desses fatos fica bem mais enriquecida. Isso por si só é geralmente um motivo suficiente para dar prioridade à transparência em detrimento de regulações nacionais relativas a confidencialidade.

Após os vazamentos de segredos militares do Afeganistão e do Iraque, são os diplomatas dos Estados Unidos que se veem agora em uma situação difícil. Essa é a terceira ação do WikiLeaks em um período de seis meses. E este último episódio provavelmente fará com que o governo em Washington se sinta exposto. Cerca da metade das mensagens diplomáticas obtidas não tem classificação de sigilo e um pouco menos do que isso, 40,5%, traz a classificação de sigilo “confidencial”. E 6% dos relatórios, ou 16.652, são classificados como “secreto” e, destes, 4.330 são tão explosivos que trazem a classificação extra “NOFORN”, o que significa que indivíduos que não sejam cidadãos dos Estados Unidos não podem ter acesso a eles. Ao todo, os documentos trazem material bruto suficiente para preencher 66 anos de edições de revistas semanais “Der Spiegel”.

Fofocas e a verdade sem retoques

Grande parte do material foi redigido e enviado porque aqueles que fizeram os relatórios ou os seus companheiros de diálogo acreditavam, com um elevado grau de certeza, que tal conteúdo não poderia ser publicado nos próximos 25 anos. Isso pode também explicar por que os embaixadores e emissários de Washington estavam tão ansiosos para relatar fofocas e rumores à sede do Departamento de Estado. Uma mensagem da Embaixada dos Estados Unidos em Moscou sobre a primeira-dama russa, Svetlana Medvedeva, por exemplo, afirma que ela está “gerando tensões entre os campos e continua sendo objeto de ávidas fofocas”. A seguir o relatório diz que a mulher do presidente Medvedev já redigiu uma lista de autoridades que deverão ser “submetidas a sofrimentos” em suas carreiras por terem sido desleais a Medvedev. Um outro relata que a mulher do líder Azerbaijão Ilham Aliyev submeteu-se a tantas cirurgias plásticas que, à distância, é possível confundi-la com uma das suas filhas, mas que ela mal consegue mais mover a face.

Porém, o que torna os documentos particularmente atraentes é o fato de tantos políticos falarem a verdade sem retoques, na certeza de que as suas opiniões jamais se tornariam públicas.

O que, então, os milhares de documentos provam? Eles de fato mostram um Estados Unidos que mantém o mundo preso a uma trela? As embaixadas de Washington pelo mundo ainda são centros de poderes estanques nos países em que elas se situam?

A resposta curta é, provavelmente não. Nas principais regiões em crise, o que emerge é a imagem de uma superpotência que não tem mais certezas quanto aos seus aliados – como no Paquistão, onde os norte-americanos estão consumidos pelo temor de que aquela instável potência nuclear possa tornar-se precisamente o lugar no qual terroristas obterão materiais nucleares perigosos.

Existem temores similares no Iêmen, onde os Estados Unidos, indo de encontro à racionalidade, permitem que sejam instrumentalizados por um líder inescrupuloso. Com a ajuda militar norte-americana que tinha como objetivo contribuir para a luta contra a Al Qaeda, Ali Abdullah Saleh pode agora travar a sua batalha contra tribos inimigas na região norte do país.

Desmoralizando ainda mais

Até mesmo após a queda de Saddam Hussein, a potência vitoriosa ainda não conseguiu impor a sua vontade sobre o Iraque. Em Bagdá, que já teve uma série de poderosos embaixadores norte-americanos – homens aos quais a imprensa internacional frequentemente gosta de se referir como sendo vice-reis norte-americanos –, cabe agora ao vice-presidente Joe Biden fazer visitas repetidas a políticos iraquianos aliados na tentativa de fazer com que eles finalmente construam uma democracia respeitável no país. Mas as mensagens da embaixada deixam bem claro que o vice de Obama está fazendo pouco progresso nesse sentido.

Em vez disso, os norte-americanos são obrigados a ouvir as críticas infindáveis do presidente egípcio Hosni Mubarek, que alega que sempre soube que a Guerra do Iraque foi o “maior erro já cometido” e que aconselhou os norte-americanos a “esquecerem essa ideia de democracia no Iraque”. Segundo Mubarak, tão logo as forças dos Estados Unidos se retirarem, a melhor forma de assegurar uma transição pacífica no país é deixar que haja um golpe militar. Tais comentários desmoralizam ainda mais os Estados Unidos.

De forma geral, os relatórios diplomáticos enviados do Oriente Médio expõem as fraquezas da superpotência. Washington sempre considerou vital para a sua segurança garantir a sua parcela das reservas de energia mundiais, mas a potência mundial vê-se muitas vezes rapidamente reduzida a tornar-se um objeto de manipulação de interesses diversos. E Washington é tragada pelas animosidades entre árabes e israelenses, xiitas e sunitas, islamitas e secularistas, déspotas e reis. Com frequência a lição contida nos documentos obtidos é que os líderes árabes usam os seus amigos em Washington para expandirem as suas próprias posições de poder.

Nota da editoria: a reportagem de “Der Spiegel” sobre os relatórios diplomáticos dos Estados Unidos vazados pelo WikiLeaks será publicada primeiro na edição em língua alemã da revista, que estará disponível na segunda-feira para assinantes e em bancas de jornais na Alemanha e na Europa. A “Spiegel Online” internacional publicará longos trechos da reportagem de “Der Spiegel” em inglês em uma série de artigos que terá início na segunda-feira.

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